5 erros comuns ao usar medicamentos sem prescrição
Tomar um remédio por conta própria é um hábito mais comum do que se imagina no Brasil. Diante de uma dor de cabeça persistente, de uma febre inesperada ou de um desconforto muscular após um dia cansativo, muitas pessoas recorrem à farmácia como primeira opção. Afinal, se o medicamento é vendido sem receita, ele deve ser seguro, certo?
Nem sempre. Embora os medicamentos isentos de prescrição (MIPs) tenham um perfil de segurança maior quando usados corretamente, o uso inadequado ainda representa um problema relevante de saúde pública. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que a automedicação inadequada contribui para eventos adversos, intoxicações e até internações evitáveis.
A seguir, estão cinco erros comuns ao usar medicamentos sem prescrição — e os motivos pelos quais eles merecem atenção.
1. Acreditar que “se não precisa de receita, não faz mal”
Esse é, talvez, o erro mais perigoso. O fato de um medicamento não exigir prescrição médica não significa que ele seja inofensivo. Analgésicos, anti-inflamatórios, antitérmicos e até antialérgicos atuam em sistemas fisiológicos complexos e podem causar efeitos adversos relevantes.
Anti-inflamatórios não esteroidais, por exemplo, são amplamente utilizados para dores musculares e articulares. No entanto, quando usados de forma frequente ou em doses inadequadas, podem aumentar o risco de gastrite, úlceras, sangramento digestivo, piora da função renal e elevação da pressão arterial.
Além disso, pessoas com doenças pré-existentes — como insuficiência renal, doenças cardiovasculares ou histórico de úlcera — podem apresentar riscos ainda maiores. O problema é que, muitas vezes, esse contexto clínico é ignorado no momento da automedicação.
2. Usar a dose “intuitiva” ou ajustar por conta própria
Outro erro comum é acreditar que a dose pode ser ajustada livremente conforme a intensidade do sintoma. Assim, se uma dor não melhora com um comprimido, a pessoa decide tomar dois. Se a febre demora a ceder, antecipa o horário da próxima dose.
Esse comportamento ignora um princípio básico da farmacologia: dose e intervalo existem para garantir eficácia e segurança. Exceder a dose recomendada não necessariamente melhora o efeito do medicamento e, muitas vezes, apenas aumenta o risco de toxicidade.
O paracetamol é um exemplo clássico. Considerado seguro quando usado corretamente, ele pode causar lesão hepática grave quando ingerido em doses acima do recomendado — inclusive com necessidade de transplante de fígado em casos extremos. O risco aumenta ainda mais quando associado ao consumo de álcool.
Portanto, seguir exatamente a posologia indicada na bula não é excesso de zelo; é uma medida de segurança.
3. Misturar medicamentos sem considerar interações
Muitas pessoas usam mais de um medicamento ao mesmo tempo sem refletir sobre possíveis interações. Analgésico para dor, antigripal para congestão nasal, antiácido para desconforto gástrico — tudo no mesmo dia, às vezes no mesmo horário.
O problema é que diferentes medicamentos podem interagir entre si, potencializando efeitos colaterais ou reduzindo a eficácia de um deles. Alguns antigripais, por exemplo, já contêm analgésicos em sua formulação. Ao associá-los a outro analgésico, o paciente pode, sem perceber, ultrapassar a dose máxima diária segura.
Além disso, associações aparentemente simples podem aumentar o risco de sonolência excessiva, confusão mental ou alterações da pressão arterial — especialmente em idosos.
Por isso, mesmo em se tratando de medicamentos sem prescrição, é fundamental verificar os componentes da fórmula e, quando possível, buscar orientação de um farmacêutico.
4. Usar o medicamento por tempo prolongado “até melhorar”
A automedicação costuma ser pensada como algo pontual, mas, na prática, muitas pessoas acabam usando o mesmo medicamento por dias ou semanas sem avaliação adequada. Um desconforto gástrico que vira uso diário de antiácido. Uma dor lombar que resulta em semanas de anti-inflamatório.
Esse uso prolongado pode mascarar sintomas de doenças mais graves e atrasar diagnósticos importantes. Além disso, aumenta o risco de efeitos adversos cumulativos, que muitas vezes passam despercebidos até se tornarem clinicamente relevantes.
Antiácidos e inibidores de secreção gástrica, por exemplo, quando usados indiscriminadamente, podem interferir na absorção de minerais e vitaminas. Já o uso prolongado de descongestionantes nasais pode causar efeito rebote, levando à congestão crônica.
Em geral, medicamentos sem prescrição devem ser usados por curtos períodos. Se o sintoma persiste, o mais seguro é procurar avaliação médica.
5. Ignorar sinais de alerta e atrasar a procura por um profissional
Talvez o erro mais sutil — e mais comum — seja usar medicamentos para “empurrar” sintomas importantes. A dor melhora temporariamente, a febre cede por algumas horas, e a pessoa acredita que o problema está resolvido.
No entanto, alguns sinais não devem ser tratados apenas com automedicação. Febre persistente, dor intensa ou progressiva, vômitos frequentes, sangramentos, falta de ar ou alterações neurológicas exigem avaliação profissional.
O uso contínuo de medicamentos pode criar uma falsa sensação de controle, quando, na verdade, a condição subjacente segue evoluindo. Em muitos casos, o atraso no diagnóstico é o principal fator que transforma um problema simples em uma complicação grave.
Automedicação responsável: existe?
Sim, desde que feita com critério. A automedicação responsável pressupõe leitura atenta da bula, respeito à dose e ao tempo de uso, atenção a doenças prévias e, sobretudo, a compreensão de que medicamentos não substituem acompanhamento médico.
Farmacêuticos têm papel central nesse processo e podem orientar sobre uso correto, interações e sinais de alerta. Ainda assim, é importante lembrar: medicamento é ferramenta terapêutica, não solução universal.
Em um contexto em que o acesso à informação é amplo, mas nem sempre confiável, compreender os limites da automedicação é um passo essencial para cuidar melhor da própria saúde — e evitar riscos desnecessários.
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