Brisadeiro: por que comestíveis de cannabis preocupam médicos

Nos últimos dias, um relato feito por um influenciador famoso nas redes sociais chamou a atenção do público: ele contou que havia consumido um brigadeiro preparado com maconha, o popularmente chamado brisadeiro, e descreveu uma experiência intensa, inesperada e desconfortável. O episódio rapidamente se espalhou, gerando memes, comentários curiosos e também alertas de profissionais de saúde. Mas, para além da celebridade envolvida, o caso reacende uma discussão importante e pouco compreendida: os efeitos dos comestíveis de cannabis no organismo e os riscos associados ao seu consumo.

Embora muitas pessoas associem a maconha a um efeito relativamente previsível quando fumada, a ingestão da substância em alimentos segue um caminho completamente diferente no corpo humano. É justamente essa diferença que transforma produtos aparentemente inofensivos, como doces e bolos, em algo potencialmente mais intenso — e, em alguns casos, mais perigoso do que se imagina.

O que são, afinal, os comestíveis de cannabis?

Comestíveis de cannabis, conhecidos internacionalmente como edibles, são alimentos que contêm compostos derivados da planta, principalmente o THC (tetra-hidrocanabinol), responsável pelos efeitos psicoativos. Eles podem aparecer em diversas formas: chocolates, balas, brownies, brigadeiros, bebidas e até receitas caseiras improvisadas.

O principal ponto de atenção é que, ao contrário do uso inalatório, o THC ingerido passa primeiro pelo sistema digestivo e pelo fígado antes de chegar ao cérebro. Esse processo altera completamente a forma como a substância age no organismo, tanto em intensidade quanto em duração.

Por que o efeito do “brisadeiro” é diferente de fumar maconha?

Quando a cannabis é fumada, os efeitos costumam surgir em poucos minutos, permitindo que a pessoa perceba rapidamente se exagerou. Já nos comestíveis, o cenário muda: o efeito pode demorar de uma a até quatro horas para aparecer. Durante esse intervalo, muitas pessoas cometem o erro de ingerir mais alimento, acreditando que “não bateu”.

Além disso, no fígado, o THC é convertido em um metabólito chamado 11-hidroxi-THC, que atravessa a barreira hematoencefálica com mais facilidade. Na prática, isso significa que o efeito pode ser mais potente, mais prolongado e mais difícil de controlar.

Essa combinação — atraso na ação e maior potência — explica por que tantas pessoas relatam experiências desagradáveis com comestíveis, mesmo quando acreditam estar consumindo uma quantidade pequena.

O que pode acontecer quando a dose passa do ponto?

Os efeitos adversos variam bastante, mas alguns são relatados com frequência tanto em estudos científicos quanto em atendimentos médicos. Entre os sintomas mais comuns estão ansiedade intensa, sensação de perda de controle, taquicardia, náuseas, tontura e confusão mental. Em alguns casos, surgem episódios de paranoia ou pânico, especialmente em pessoas sem experiência prévia com a substância.

Há também registros de episódios psicóticos transitórios, caracterizados por pensamentos desorganizados, alterações da percepção e medo intenso. Embora esses quadros geralmente sejam reversíveis, eles podem ser extremamente angustiantes e, em determinadas situações, levar à busca por atendimento de emergência.

Existe risco maior para a saúde mental?

Esse é um dos pontos mais sensíveis do debate. Evidências científicas indicam que o THC pode atuar como um gatilho para sintomas psiquiátricos em indivíduos predispostos, especialmente aqueles com histórico pessoal ou familiar de transtornos como ansiedade grave, depressão ou psicoses.

Em jovens adultos, o risco tende a ser ainda maior, já que o cérebro continua em processo de maturação até aproximadamente os 25 anos. A ingestão de doses elevadas de THC, especialmente de forma inesperada, pode intensificar esse impacto.

Por isso, profissionais de saúde mental costumam alertar que o consumo de comestíveis não deve ser tratado como algo trivial ou “mais leve” apenas por não envolver fumaça.

E os efeitos no corpo vão além do cérebro?

Embora a maior parte das discussões gire em torno dos efeitos psicológicos, o corpo como um todo pode ser impactado. O THC influencia o sistema cardiovascular, podendo causar aumento da frequência cardíaca e alterações na pressão arterial. Em pessoas com doenças cardíacas pré-existentes, isso pode representar um risco adicional.

Além disso, há relatos de desorientação, sonolência extrema e dificuldades de coordenação motora, o que aumenta o risco de quedas e acidentes — especialmente quando o consumo ocorre fora de ambientes controlados.

Um problema adicional: a falta de controle sobre o que se consome

No Brasil, a maior parte desses produtos circula de maneira informal, sem qualquer tipo de padronização. Isso significa que, na prática, quem consome raramente sabe quanto THC está ingerindo. A concentração pode variar enormemente de um preparo para outro, mesmo quando a aparência do alimento é semelhante.

Essa ausência de controle torna o consumo ainda mais imprevisível. O que para uma pessoa pode ser apenas um “doce diferente”, para outra pode resultar em horas de desconforto físico e mental.

Curiosidade não é sinônimo de segurança

O episódio que viralizou nas redes sociais ajuda a ilustrar um ponto central: a curiosidade em torno dos comestíveis de cannabis cresce, mas o conhecimento sobre seus efeitos não acompanha esse interesse. Muitos ainda acreditam que comer maconha é automaticamente mais seguro do que fumar, quando, na verdade, os riscos apenas se manifestam de outra forma.

Isso não significa demonizar o tema, mas sim tratá-lo com informação de qualidade, embasada em evidências e livre de mitos. A ciência mostra que o problema raramente está na curiosidade em si, mas na falta de compreensão sobre como o corpo reage a determinadas substâncias.

Quando procurar ajuda médica?

Em casos de confusão mental persistente, ansiedade intensa que não melhora, vômitos repetidos, dor no peito ou alterações importantes do comportamento, é fundamental procurar atendimento médico. A maioria das intoxicações por comestíveis é autolimitada, mas isso não elimina a necessidade de avaliação profissional em situações mais graves.

Informação como ferramenta de prevenção

Casos que ganham destaque na mídia costumam gerar curiosidade imediata, mas também oferecem uma oportunidade valiosa de educação em saúde. Entender por que um simples brigadeiro pode provocar efeitos tão intensos ajuda a desmistificar ideias equivocadas e reforça a importância do consumo consciente — ou da escolha de não consumir.

No fim das contas, episódios como esse mostram que, quando o assunto é saúde, informação baseada em evidências continua sendo o ingrediente mais importante de qualquer conversa.

Quer continuar explorando temas que despertam curiosidade e exigem atenção à saúde? Confira outros conteúdos da categoria atualidades e saúde mental aqui no Curiosaúde.

Share this content:

Publicar comentário