Agora Tem Especialistas: SUS amplia acesso a consultas

Agora tem Especialistas, novo programa do SUS

Uma resposta a uma demanda antiga

Conseguir uma consulta com um especialista pelo SUS sempre foi um desafio para milhões de brasileiros. Em muitas regiões, a espera por uma avaliação com cardiologistas, oftalmologistas ou dermatologistas pode ultrapassar meses — e, em casos extremos, chegar a mais de um ano. Esse gargalo histórico compromete diagnósticos precoces, atrasa tratamentos e sobrecarrega os serviços de urgência e emergência.

Foi nesse cenário que o Ministério da Saúde lançou o programa “Agora Tem Especialistas”, uma estratégia nacional que busca ampliar o acesso da população às consultas e exames especializados, descentralizando a oferta e fortalecendo a rede pública de saúde. A proposta é simples, mas ambiciosa: levar médicos especialistas para mais perto das pessoas, reduzir filas e dar mais resolutividade à atenção básica.

Por que o acesso a especialistas é tão difícil no SUS

Para entender a relevância do novo programa, é importante olhar para os motivos que dificultam o acesso a essas consultas. Historicamente, a maior parte dos especialistas se concentra nas capitais e grandes centros urbanos, enquanto municípios de pequeno e médio porte enfrentam carência de profissionais.

Além disso, o financiamento da média complexidade — que inclui consultas e exames especializados — foi insuficiente por muitos anos, levando a uma capacidade limitada de oferta. A dificuldade logística também é um fator: muitos pacientes precisam se deslocar longas distâncias para conseguir atendimento, o que desestimula o comparecimento e pode agravar doenças não tratadas.

Por fim, os sistemas de regulação, responsáveis por organizar as filas e encaminhar pacientes, nem sempre são eficientes. A soma desses fatores gera longas filas e prejudica a continuidade do cuidado, um dos principais princípios do SUS.

Como o programa funciona na prática

O “Agora Tem Especialistas” foi desenhado para enfrentar esses problemas de forma prática e progressiva. O Ministério da Saúde está financiando e apoiando os municípios para contratar ou credenciar médicos especialistas em diversas áreas, com prioridade para as especialidades mais demandadas, como cardiologia, ortopedia, oftalmologia e ginecologia.

As consultas podem ocorrer em unidades básicas de saúde (UBSs), em centros de especialidades regionais, ou até em unidades móveis adaptadas, que chegam a localidades sem estrutura fixa. Essa descentralização é essencial para garantir que o paciente seja atendido no próprio território, sem precisar enfrentar longas viagens.

Outra inovação é a integração direta com a Atenção Primária. Os médicos da UBS continuam sendo a porta de entrada do sistema e, a partir da avaliação inicial, encaminham o paciente para o especialista pelo sistema de regulação municipal ou estadual. Isso permite um acompanhamento mais coordenado e reduz a chance de perda de seguimento.

Onde o programa já começou e os primeiros resultados

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o programa começou a ser implementado em diversos estados ainda em 2024. Municípios de diferentes portes aderiram à iniciativa, priorizando especialidades com maiores filas. Em algumas regiões do Nordeste e do Centro-Oeste, por exemplo, já foram realizadas milhares de consultas adicionais em poucos meses.

Além disso, muitos locais têm registrado uma redução significativa no tempo de espera, principalmente para atendimentos oftalmológicos e ortopédicos, que costumavam concentrar as maiores filas. A estratégia de levar especialistas para dentro das UBSs também tem sido bem recebida pela população, que agora consegue atendimento especializado mais perto de casa.

Impactos esperados a longo prazo

Os efeitos do “Agora Tem Especialistas” vão além da redução imediata de filas. Ao facilitar o acesso a consultas e exames, o programa pode contribuir para diagnósticos mais precoces, permitindo intervenções em estágios iniciais de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e cardiopatias.

Com isso, espera-se também diminuir internações por condições sensíveis à atenção primária — aquelas que poderiam ser evitadas com acompanhamento adequado — e melhorar indicadores de saúde pública. A longo prazo, essa mudança tende a reduzir custos hospitalares e fortalecer a rede de atenção do SUS como um todo.

Desafios e críticas ao programa

Apesar do potencial positivo, a iniciativa enfrenta alguns desafios. A escassez de especialistas em regiões remotas continua sendo uma barreira. Mesmo com financiamento federal, nem todos os municípios conseguem contratar médicos especializados, principalmente em áreas de difícil provimento.

Outro ponto levantado por especialistas em saúde pública é a necessidade de garantir sustentabilidade financeira e logística do programa. É fundamental que a expansão das consultas seja acompanhada de investimentos em infraestrutura, equipamentos e sistemas de informação. Caso contrário, há risco de sobrecarga e perda de qualidade do atendimento.

Além disso, é preciso garantir que a integração entre atenção básica e especializada seja real e eficiente. Se o encaminhamento não for bem coordenado, o risco é apenas deslocar o gargalo de um ponto da rede para outro.

O futuro da atenção especializada no SUS

O “Agora Tem Especialistas” representa um passo importante dentro de uma estratégia mais ampla de fortalecimento do SUS. Ao lado de programas como o Mais Médicos e o Pátria Voluntária na Saúde, a iniciativa sinaliza uma tentativa de reconstruir e modernizar a rede pública, após anos de subfinanciamento e fragmentação.

Para que esse esforço seja bem-sucedido, será necessário um trabalho contínuo entre União, estados e municípios. O envolvimento da população também é essencial: acompanhar, participar dos conselhos de saúde e cobrar transparência são formas de garantir que as políticas públicas sejam efetivas e duradouras.

Conclusão

O acesso a especialistas sempre foi um dos maiores desafios do SUS. O programa “Agora Tem Especialistas” surge como uma resposta concreta, buscando encurtar filas, descentralizar atendimentos e dar mais resolutividade à atenção primária. Embora ainda haja obstáculos a superar, a iniciativa tem potencial para transformar a forma como milhões de brasileiros acessam cuidados especializados.

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